Universo Vasco

Brant aposta na venda de produtos do Vasco para aumentar receita do clube

O discurso é o mesmo de 2014 e 2017: foco na gestão e na profissionalização do clube, que ele entende não ter entrado no século XXI. Ao mesmo tempo, o tom subiu: Brant encara o pleito de 7 de novembro como um tira-teima com Alexandre Campello, antigo aliado que mudou de lado na última eleição, a quem classifica como um continuador do modus operandi do ex-presidente Eurico Miranda.

– O que vem nessa eleição agora é o tira-teima entre Julio e Campello. É a transformação e a renovação contra esse sistema que existe no Vasco há 22 anos e que continua lá. Independentemente de o Eurico não estar mais lá, o sistema continua no Vasco. E é contra isso que vamos lutar – resumiu o candidato.

Com apoio de ídolos do clube – entre eles Edmundo, Felipe, Juninho Pernambucano e Pedrinho -, Brant promete um time competitivo e um clube transparente. Para ele, a mudança da situação econômica passa por aumento de receitas. E, para isso, o Vasco precisará, segundo o candidato, vender. Não só jogadores, como produtos.

– Tem que ser absolutamente tarado e psicótico em vender tudo – sentenciou.

O ge entrevistou Brant na sexta-feira, em conversa de pouco mais de uma hora e 30 minutos. Na noite de terça, o candidato anunciou oficialmente que concorrerá.

 

 

A entrevista completa com Julio Brant

Como foi o processo de decisão da candidatura e por que o anúncio demorou?

– A Sempre Vasco tem quadros muito capacitados de executivos do mercado. É uma marca nossa. Desde 2014 que a gente vem apresentando para o quadro social do clube um debate de alto nível de projeto. Nossa campanha sempre foi pautada pela apresentação de projetos. Há sete anos fazemos isso, sem nenhum ataque. Nosso enfoque nunca foi uma pessoa, mas sim um projeto e a melhor pessoa para conduzi-lo. São analisados vários fatores, como capacitação técnica, disponibilidade de tempo, financeira, capacidade de liderança, conhecimento do clube, conhecimento do contexto político.

O Vasco não é uma empresa. Sempre pautamos a escolha do candidato por um processo seletivo. E em 2020 não foi diferente. Tínhamos pessoas capacitadas e debatemos dentro do grupo quem seria o mais capacitado para tocar o projeto. Depois de um debate interno, chegamos à conclusão que eu seria o mais capacitado para levar o projeto adiante, sem desmerecer outras pessoas do grupo. Foi uma questão de análise objetiva de alguns pontos. A seleção demorou um pouco porque tivemos, inclusive, a entrada de novos executivos no grupo de 2017 para cá. Começamos o debate em março, tínhamos como meta a definição até o meio do ano, o que aconteceu mais para o final de agosto.

Foi muito fácil porque todo o nosso projeto tem muito a minha cara. Porque eu contribuí desde o começo. Então fica muito fácil colocar novos conceitos, mas com a mesma filosofia. Temos novidades no projeto, mas a filosofia não mudou, que e a profissionalização profunda do Vasco.

A pandemia atrapalhou o processo?

– Atrapalhou muito. O contato do dia a dia do grupo se perdeu. Isso foi muito ruim. Tínhamos o hábito de nos reunirmos pessoalmente pelo menos duas vezes por semana. Claro que passamos isso para uma plataforma online, mas não é igual. Na reunião presencial ganhamos mais intimidade. Temos pessoas que entraram no grupo nesse ano.

Outro ponto negativo é a mudança de premissa do negócio. O Vasco não está fora do contexto econômico mundial. Na Europa, por exemplo, vários clubes estão liberando jogadores. E isso afeta diretamente o nosso mercado. Estão reduzindo quadros, como todas empresas estão fazendo. O contexto macroeconômico mudou significativamente. E nós tivemos que ajustar o projeto nos últimos três meses. 2020 é um ano atípico. Nós vamos assumir o clube em 2021 carregado com o passivo de 2020. Queda de faturamento, aumento de custos, revisão da matriz de negócio… isso impacta no patrocinador, na bilheteria, nas ações internas de consumo.

Ainda tem a questão do desemprego. Já são mais de 13 milhões de brasileiros na rua. Óbvio que isso atinge uma parte dos sócios e torcedores do Vasco que consomem. Qual é o buraco de 2020? Ninguém sabe. Quem disser que sabe está mentindo. Ainda mais no Vasco, que não coloca isso claramente. O próximo balanço só será publicado pela próxima gestão, em 2021. Então, fizemos três cenários. Todos ruins, piores do que tínhamos em março. Mas tem um otimista, um conservador e um mediano. E a partir daí fizemos o processo.

 

É a terceira vez que o senhor vai tentar a presidência do Vasco.

– Nós temos uma missão, que é tocar esse projeto no clube. Temos a convicção de que é um projeto transformador, que mudará o clube de forma permanente. Quem vier depois de nós assumirá um clube muito diferente do que é hoje. Não somente pelo ponto de vista do resultado financeiro, mas da gestão.

Toda gestão melhora o clube de alguma forma, traz algo positivo, todas gestões fizeram. Mas não estamos falando disso. Estamos falando de mudar a forma como o clube foi gerido até hoje. Isso não aconteceu. O que o Campello fez foi manter o que sempre foi feito. Melhorou um pouquinho, assim como outras coisas pioraram. O Eurico entregou o Vasco na Libertadores (2018). O que de fato mudou no clube, no ponto de vista de gestão?

Mas é possível transformar o Vasco com o atual cenário político do clube?

– O Vasco não é uma empresa, é um clube de futebol, sem fins lucrativos. Tem uma dinâmica política. A política faz parte do ser humano. É normal. Não é um problema, é importante, parte das relações sociais.

Precisamos fazer boa política, que é usar o discurso transformador, que o sócio e os torcedores querem, para pressionar a mudança dentro do clube. Desde 2014 temos feito isso. Fizemos o movimento de fora para dentro. Quem estava dentro não queria mudança, como não quer até hoje. O sistema reage a nós, não quer mudanças e reage à Sempre Vasco. Isso é fato. E o que aconteceu em 2017 é a materialização mais concreta disso. Ele (o sistema) coopta terceiros para se manter vivo. Foi o que aconteceu com Campello. O Eurico era uma figura do sistema, assim como o Campello. Ele é antagônico ao que queremos. E eu não vejo o Vasco crescendo, da forma que queremos, sem o sistema ser confrontado. É como água e óleo. Não se misturam.

Mas o Campello foi seu aliado em 2017…

– É só vocês pegarem o discurso dele em 2017. O que ele fez como prática daquele discurso. Absolutamente nada. Falar com a obra pronta é fácil. A união daquela eleição não foi fácil, não foi unânime no grupo. Houve uma votação difícil. Eu fui contra, por exemplo.

Mas por outro lado tínhamos uma necessidade, por conta da fraude, de consolidar votos. Existia um entendimento por parte da torcida de que era necessária a união. Mas fica claro que a união não pode acontecer por conta de fisiologia, mas pelo projeto. É difícil explicar isso sem soar arrogante, fica parecendo que queremos ficar sozinhos. Mas não é isso. Quando existe um conflito de visões muito forte, o resultado da união não é bom. A filosofia tem que ser muito clara. Tanto que deixamos isso muito claro para os nossos grupos de apoio hoje. E todos têm o mesmo entendimento, tudo está muito alinhado em termo de projeto.

 

O objetivo daquela união com Campello foi derrotar o Eurico?

– O objetivo não era tirar o Eurico. Era quebrar o sistema. Se fosse só para tirar o Eurico, eu estaria em casa hoje. O Eurico era parte disso. A parte que aceitou ser exposta. O cara que aceita botar a cara. Como o Campello. A maioria não aceita, faz e fica constrangido, na sombra. Por trás deles existe uma galera. E cada vez fica mais fácil de ver. Na votação do estatuto, colocamos o item para que conselheiro que votasse não pudesse ser remunerado ou contratado pelo clube, você viu quem reagiu. É um instrumento de poder de quem usa o orçamento do clube para ganhar voto. É um absurdo, um conflito de interesse brutal.

Hoje o senhor considera que foi um erro ter feito a aliança com Campello?

– Não vida é difícil você ter um preto e branco muito claro. Teve erro, mas a decisão foi certa e errada. Por quê? Ela foi certa pelo movimento jurídico na questão da eleição, mas foi errada por um erro nosso de ter feito uma escolha por um grupo que não comungava dos nossos valores ideológicos. Dessa vez já decidimos. Se for o caso, vamos deixar a eleição de lado. Vamos escolher a ideologia e a filosofia, que são mais importantes do que a eleição.

Qual foi o sentimento após a derrota em janeiro de 2018?

– Não me vejo como vítima. Ganhamos no voto, ganhamos a eleição do ponto de vista do sócio e, mais do que isso, conseguimos levar para o conselho, depois da nossa derrota, a pauta mais importante da história do clube: a eleição direta. Foi uma derrota, doeu, mas nos deu legitimidade e força política esse tema. Se não fosse por essa derrota, não teria acontecido. Como até o o último minuto tentaram sabotar a eleição direita. Essa derrota deu esse entendimento ao vascaíno, de maneira geral, da importância da eleição direta e nos deu força política dentro do conselho para aprovar essa mudança. Então perdemos, mas ganhamos.

A eleição direta é uma reivindicação do vascaíno. O rito usado para aprová-la gerou críticas da Diretoria Administrativa e do Conselho Deliberativo. O processo foi correto? Faués Cherene Jassus, o Mussa, presidente da Assembleia Geral, conduziu corretamente?

– Entendemos que a construção da eleição direta foi muito legítima e consistente. Ter eleição direta nada mais é do que colocar o Vasco no século XXI. O Mussa está seguindo rigorosamente o que foi aprovado. A eleição direta, a votação e a deliberação, foi convocada separadamente na Assembleia Geral. Foi o único tema que de fato foi aprovado seguindo todo o rito determinado pelo conselho. É inquestionável.

Alguns adversários, como o próprio presidente Alexandre Campello, alegam que Mussa tem sido muito parcial na condução do rito.

– Parcial? Claro que não. O Mussa é independente. Apoiamos a boa causa, assim como eles apoiam outras agendas. Acreditamos e temos convicção sobre a eleição direta. Sempre entendemos que o maior apelo do vascaíno é pela eleição direta. O fato de o Mussa estar seguindo o que foi aprovado no Conselho Deliberativo nos faz apoiá-lo. Assim como nas redes sociais, 90% dos vascaínos o apoiam. A Sempre Vasco não apoia o Mussa. A Sempre Vasco apoia a agenda que ele defende, que é eleição direta e limpa.

Uma das críticas se dá pelo fato de ele ter contratado uma empresa como pessoa física para realizar a AGE que aprovou as diretas. Sobre esse ponto específico, qual é sua opinião?

– Eu não tenho uma visão profunda sobre esse assunto, não participei. Mas é fato que a empresa fez a AGE e publicou um relatório independente. Olhando de fora, vejo que o Campello criou todas as dificuldades para que fosse feito o processo da eleição direita e que a AGE acontecesse. Acabava a luz todo dia em São Januário, todo dia a internet caía, todo dia fechava a secretaria, todo dia tinha um problema que impedia o Mussa de ter acesso a documentos… Todas as medidas que podiam ser feitas para atrapalhar a AGE foram feitas.

O senhor participou de outros dois processos eleitorais com a presença do ex-presidente Eurico. Como é participar de uma eleição sem ele?

– O Eurico representava um sistema. A minha briga nunca foi pessoal contra o Eurico. A minha briga era contra o que ele representava. Eu falei isso para ele, não tenho nada pessoal contra ele. Não tinha relacionamento com ele. Nós éramos contra o que acontecia no Vasco nos últimos 20 anos e que levou o clube à situação que está, do ponto de vista moral e esportivo. O Vasco não é só futebol. O Vasco é uma instituição poderosa que está vivendo uma crise que já dura 20 anos. E esse sistema foi o responsável por essa crise no Vasco. Éramos contra e continuamos sendo contra o sistema.

O que vem nessa eleição agora é o tira-teima entre Julio e Campello. É a transformação e a renovação contra esse sistema que existe no Vasco há 22 anos e que continua lá. Independentemente de o Eurico não estar mais lá, o sistema continua no Vasco. E é contra isso que vamos lutar.

 

Algumas correntes políticas dizem que a reforma do estatuto iria ajudar a mudar esse sistema. A Sempre Vasco foi contra…

– Fomos contra alguns pontos da reforma do estatuto e favoráveis a outros, como a responsabilização do gestor. Somos plenamente favoráveis à eleição direta, eliminação do conflito de interesses do conselheiro que assume cargo na gestão e mesmo assim vota no Conselho. Mas o nosso entendimento era que o processo político, que levou a essa reforma, não era o melhor.

É simples. Como foi um processo confuso, é melhor deixar que o próximo presidente, eleito em uma votação menos complicada do que foi em 2017, devido à situação do golpe, conduza esse processo da reforma. Ninguém mais legitimado para conduzir isso do que o presidente eleito de forma direta pelo sócio.

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